Todos nós já ouvimos a frase: “Sem arrependimentos!”, geralmente pronunciada quando se está prestes a fazer algo um pouco imprudente, talvez.

Mesmo assim, a filosofia do “Viver sem arrependimentos” não é sempre tão simples.

Nos arrependemos pelas oportunidades perdidas.

Nos arrependemos pelas coisas que nos fizeram sentir idiotas.

Nos arrependemos por não ter dito mais vezes que amamos alguém antes dela morrer.

Nos arrependemos por não gastar nosso tempo sabiamente, por não realizar mais.

Nos arrependemos por procrastinar, por não construir hábitos melhores, por comer muitos doces, por não escrever o livro que sempre queremos escrever, por não ler os livros que planejamos ler, por não aprender inglês, xadrez ou as artes ninjas.

Nos arrependemos por entrar em um relacionamento complicado ou por ter cometido erros em um relacionamento passado.

Sim, nós nos arrependemos, lamentamos e muitas vezes isso nos consome.

Porque isso acontece

Simplificando, lamentamos as escolhas que fizemos porque achamos que deveriamos ter feito outras escolhas.

Achamos que deveríamos ter feito algo melhor, mas não fizemos. Deveríamos ter escolhido um parceiro melhor, mas não escolhemos. Deveríamos ter escolhido aquele trabalho mais arriscado, mas não escolhemos. Deveríamos ter sido mais disciplinados, mas não fomos.

Lamentamos essas escolhas, que estão no passado e não podem ser mudadas, porque nós as comparamos com um caminho ideal que pensamos que devíamos ter tomado. Sempre temos um ideal nas nossas cabeças sobre o que poderia ter sido se apenas tivéssemos feito uma escolha diferente.

O problema é que não podemos mudar essas escolhas. E continuamos comparando a escolha imutável que fizemos a esse ideal. Esta fantasia. Ela não pode ser mudada, e nunca será tão boa como o ideal que criamos. A escolha imutável que tomamos será sempre pior. Isso fica constantemente martelando nas nossas cabeças.

Porque não abrimos mão disso? O que é tão importante que continuamos presos no passado?

Porque continuamos a lamentar sobre escolhas passadas

Tenho notado que eu passo por momentos difíceis pensando sobre uma má escolha por causa de como isso entra em conflito com a minha auto-identidade.

Nós todos temos essa ideia de quem somos: nós somos boas pessoas. Talvez até sejamos espertos, competentes ou temos um bom coração. Tomamos a melhor decisão que podemos, porque é claro, nós somos boas pessoas. Mesmo que você duvide e tenha uma má imagem, você provavelmente pensa que é uma boa pessoa.

Então, quando alguém ataca a nossa identidade – insulta nossa competência, nos chama de mentirosos, diz que trapaceamos – isso machuca! Ficamos putos e na defensiva. Não conseguimos parar de pensar sobre essa ofensa.

E quando acreditamos que cometemos um erro, isso também ataca a nossa identidade. Agimos mau … porque não poderíamos ser alguém melhor e ter tomado uma decisão diferente? Essa má decisão entra em conflito com a ideia que temos sobre a boa pessoa que somos.

E o problema continua martelando na nossa cabeça, sem resolução. Não há forma de resolver esse problema, pois a má escolha não pode ser mudada e nós não podemos resolver o conflito com a nossa auto-identidade.

Como abrir mão das lamentações

Ao examinar os nossos arrependimentos e porque é tão difícil abrir mão deles, nós podemos listar algumas das causas:

  • Comparamos as nossas escolhas passadas com um ideal.
  • Temos uma identidade imaginária que entra em conflito com a ideia de uma má escolha.

As duas causas giram em torno de ideais, que não é realidade – apenas fantasias de como gostaríamos que a realidade fosse. Elas são inventadas e não ajudam. Neste caso, esses ideais estão nos causando angústia.

Então, o ponto é abrir mão dos ideais e abraçar a realidade

Aqui está a realidade das duas causas:

  • A escolha que fizemos no passado está feita e não podemos mudá-la. E, na verdade, há o lado bom dessa escolha se optarmos por ver isso. Ser capaz de fazer uma escolha é algo incrível, assim como estar vivo, aprender com nossas experiências e estar na presença de pessoas fantásticas, etc. E podemos nos contentar com nossas escolhas e vê-las como “boas o suficiente” ao invés de sempre ter esperança em escolhas perfeitas. Algumas escolhas serão ótimas, outras não serão perfeitas, e nós podemos aceitar todo tipo de decisão que tomarmos.
  • Nós nem sempre somos bons, na verdade, nossa identidade pode comportar várias facetas: as vezes somos bons, outras não, e algumas vezes ficamos no meio termo. Cometemos erros, fazemos coisas boas, nos importamos, somos egoístas, somos honestos e algumas vezes não somos honestos. Nós somos tudo isso, dessa maneira, tomar uma má decisão não está em conflito com essa auto-identidade que é mais flexível (e realista). Essa má decisão é uma parte dessa auto-identidade.

Fácil falar, difícil fazer, mas quando nos encontrarmos obcecados por escolhas passadas, nós podemos: 1) reconhecer que estamos sendo afetados por esse padrão; 2) compreender que há algum ideal que estamos comparando com as nossas escolhas e nós mesmos; 3) abrir mão de ideais perfeitos e abraçar uma parte mais ampla da realidade.

Isso é uma prática constante, e nos ajuda a não buscar por perfeição e nem estar constantemente revisando escolhas passadas, e por outro lado, encontrar satisfação no que fizemos e focar no que estamos fazendo agora.

Arrependimentos fazem parte da vida, queiramos ou não, estejamos cientes deles ou não. Ao olhar para a causa das nossas lamentações e abraçar uma parte mais ampla da realidade nós podemos aprender a nos contentarmos com o que escolhemos e ficar mais felizes tanto com passado como com momento presente.

E essa será uma escolha que você não vai se arrepender.

Nota do editor: Artigo retirado do Blog Zen Habits, escrito por Leo Babauta. Traduzido e adaptado por Aécio Neto.